Autismo: foque no potencial e não nas limitações

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A americana Temple Grandin viaja pelo mundo dando palestras sobre sua condição e sua carreira de sucesso no setor agropecuário. Em entrevista exclusiva à CRESCER, ela fala sobre as dificuldades que enfrentou e dá sugestões de como os pais podem incentivar os filhos a desenvolver talentos.

O mundo precisa dos diferentes tipos de cérebro trabalhando em conjunto. É nisso que acredita Temple Grandin, americana de penetrantes olhos azuis e cabelos grisalhos, que transformou o manejo do gado nos Estados Unidos, por meio de seus projetos de currais e frigoríficos que prezam o bem-estar dos animais. Grandin também provocou uma segunda revolução ao compartilhar em palestras pelos quatro cantos do globo suas experiências do ponto de vista único de uma pessoa autista.

Ao visitar o Brasil recentemente, ela conversou com a CRESCER sobre sua trajetória espetacular, de menina que tinha dificuldade para falar até se tornar uma das líderes da comunidade neurodivergente, ou seja, de pessoas que têm cérebros que funcionam de maneira incomum. “Eu penso em imagens, não em palavras. É como se um filme com cores e sons passasse continuamente na minha cabeça. Por ser uma pensadora visual, sou boa com detalhes, mas não consigo trabalhar com generalizações. No trabalho com os bois, notei vários detalhes que a maioria dos cuidadores não percebia e criei desenhos de instalações que se preocupam com o conforto dos animais”, explica.

Nos modelos de frigorífico idealizados por Temple existe, por exemplo, piso antiderrapante para que os animais não escorreguem. Não há correntes penduradas no teto nem objetos como mangueiras espalhados pelo caminho que percorrem, para que não assustem. Os corredores por onde os animais transitam são circulares, em vez de uma linha reta, respeitando o instinto do gado de voltar ao lugar de onde veio. Hoje em dia, mais da metade dos rebanhos bovinos dos Estados Unidos e do Canadá é abatida nos equipamentos criados por Temple. Além de uma carreira de sucesso, a americana, psicóloga com pós-graduação em Ciência Animal, é professora desta disciplina na Universidade Estadual do Colorado e autora de mais de dez livros sobre bem-estar animal e autismo.

Confira a entrevista:

Quais eram suas principais dificuldades quando criança?
Eu não falava. Não pronunciei uma frase sequer nos meus três primeiros anos de vida. Tinha muitas crises de birra. Minha mãe contratou um professor particular para me ensinar a falar, e ele trabalhava bastante comigo todos os dias. Aos 4 anos, estava falando. Minha mãe, então, me matriculou em uma escola pequena: na minha classe havia apenas 12 alunos, uma infraestrutura antiga e, logo no primeiro dia, o professor explicou aos outros estudantes que eu tinha limitações que não eram visíveis, como muletas ou aparelhos dentários, e que eles não deviam me provocar por causa disso, deveriam me ajudar. Nesses primeiros anos no colégio não tive problemas com colegas. Na escola, eu gostava de pôr a mão na massa, era boa em artes e sempre fui encorajada, tanto pelos professores quanto pela minha família. Isso é essencial para qualquer um que convive com uma criança neurodivergente. É preciso investir nas habilidades que se destacam desde cedo.

Qual foi o seu segredo para superar o seu problema com a fala e se tornar palestrante?
A primeira vez que tive de dar uma palestra na faculdade, entrei em pânico e abandonei no meio. O que fiz, desde então, foi preparar slides muito bons porque, se você travar no meio da apresentação, pode passar para o próximo e ele vai lembrar você sobre o que falar.
Quando comecei a dar palestras sobre gado, ia a ranchos e tirava muitas fotos das coisas sobre as quais ia falar. E levava aos eventos imagens das sombras nas paredes que assustavam os bois, por exemplo, que me ajudavam a transmitir minhas ideias mesmo quando as palavras me faltavam. O auxílio de alguns mentores que treinaram as apresentações comigo antecipadamente, principalmente de professores da faculdade,
também foi essencial.

Como os pais podem ajudar crianças com transtornos sensoriais?
Primeiro, vamos falar de hipersensibilidade auditiva. Recentemente, conversei com pais que tinham um filho que entrava em pânico quando ouvia a campainha da quadra de basquete [usada para demarcar os intervalos de uma partida]. Os pais levaram o menino para a quadra quando não tinha mais ninguém lá e deixaram que ele brincasse com o botão que aciona a campainha. Começaram a tocar música naquele ambiente e pediram para que o garoto acompanhasse o ritmo. Procedimentos semelhantes funcionam para o secador de cabelo, o aspirador de pó… O importante é que a criança tenha controle e possa acionar ou interromper quando quiser o barulho que a incomoda. Isso ajuda os pequenos a ficarem mais resistentes
àquele som. Evite também o uso de fones de ouvido, eles pioram o problema. Mesmo com muito treino, porém, essas crianças provavelmente terão dificuldade com processamento auditivo na vida adulta, mesmo que se tornem menos sensíveis a alguns ruídos. Eu, por exemplo, sou incapaz de ouvir o que a pessoa ao meu lado está me dizendo se estiver em um restaurante lotado e barulhento. Até hoje não consigo, mesmo com muito treino. Já para os disléxicos, que têm problemas no processamento visual e, muitas vezes, dificuldade para a leitura, recomendo colocar um texto no computador e mudar a cor do plano de fundo, experimentando com fontes diferentes para ver se a criança se sente mais confortável com alguma das combinações. Da mesma forma, imprima o texto em papéis de tons pálidos de azul, cinza e lilás. Ninguém sabe por que isso funciona, mas, às vezes, dá certo e os pequenos conseguem ler. Não funciona para todas as crianças disléxicas, é apenas para um subtipo específico, mas é algo tão simples de tentar que vale a pena. Já vi isso salvar carreiras.

E no caso das crianças que têm sensibilidade ao toque?
Quando o pequeno não gosta de ser tocado, a sensação de pressão e compressão pode ajudá-lo. A criança pode, por exemplo, deitar embaixo de cobertores ou almofadas pesadas para provocar essa sensação. No meu caso, criei uma máquina de abraço feita de madeira que é retratada corretamente no filme Temple Grandin (2010, HBO). Quando as pessoas me abraçavam, era um estímulo muito intenso, e eu não sabia lidar. Mas com o uso da máquina que me espremia e ajudava a me acalmar, perdi a hipersensibilidade. Não preciso mais dela, e hoje consigo tolerar o abraço de outras pessoas. Recomendo que pais evitem toques mais suaves, que costumam perturbar crianças com esse transtorno. Uma das hipersensibilidades táteis mais difíceis de contornar, pela minha experiência, é a aversão à roupa áspera. Até
hoje não consigo usar roupas que não tenham tecido macio ou que possuam costuras que rocem na pele.

O que mais ajudou você no aprendizado de habilidades sociais?
Eu cresci nos anos 50, e o ensino desse tipo de habilidade para crianças era mais estruturado. Isso ajudava bastante e era, muitas vezes, papel dos avós, além dos pais. Eles ensinavam as crianças a dizer “por favor e obrigado”, a dar apertos de mão, a esperar a vez delas. Agora, não tenho certeza do que está acontecendo aqui no Brasil, mas, em muitos países, o ensino de habilidades sociais está muito menos estruturado. Espera-se que a criança aprenda as regras sociais e de etiqueta no convívio com os outros, mas as crianças autistas precisam que essas coisas sejam ditas de maneira clara e objetiva para elas.

Atualmente, as escolas oferecem as ferramentas necessárias para o desenvolvimento
de crianças neurodivergentes?

A maioria, não. As aulas nas quais é possível botar a mão na massa, como arte e carpintaria, e o contato com animais são deixados em segundo plano. Hoje, nos Estados Unidos, há falta de bons encanadores, eletricistas, mecânicos e soldadores. Existem algumas crianças que são excelentes com habilidades manuais, apesar de terem déficits em outras áreas, mas isso não é incentivado porque essas profissões são desvalorizadas. É preciso haver mais respeito. Eu, por exemplo, até hoje sou incapaz de fazer álgebra, é muito abstrato para mim, mas me peça para desenhar um curral e eu construirei o modelo com todos os detalhes.
A escola também precisa motivar as crianças a produzir por conta própria e não apenas seguir um modelo. Como consegui um emprego apesar de ser estranha socialmente? Vendia o meu trabalho, em vez de vender a mim mesma. Levava desenhos dos projetos que fazia.
Quando você é esquisita, tem de impressionar as pessoas pelo seu trabalho. Foque no potencial e não nas limitações.

Que conselhos você dá para pais de crianças que fazem parte do espectro autista e que se preocupam com o futuro profissional dos filhos?
Quando não há limitações muito severas, esses pequenos têm muito a contribuir para o mercado de trabalho com sua maneira diferente de ver o mundo. As crianças autistas geralmente têm interesses limitados, e os pais precisam ampliá-los, contribuindo para que se tornem menos fixadas em determinadas coisas. Por exemplo, se o seu filho gosta de carros, ensine-o a ler usando um livro sobre automóveis; a fazer contas com base nas dimensões de um veículo, e a entender a ciência de como os motores funcionam. Quando eu era pequena, desenhava a mesma cabeça de cavalo diversas vezes. Minha mãe então me incentivou a expandir bastante essa obsessão, e comecei a fazer desenhos dos lugares em que gostaria de cavalgar, dos estábulos onde os animais eram guardados e do equipamento que usavam, o que acabou sendo um treino bastante útil para minha profissão.

Fonte: Crescer

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Paula Tooths
Paula Tooths
Jornalista, produtora de TV e escritora, autora de sete títulos publicados no Reino Unido. | Londres - Miami

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