Adulto hiperativo

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Não dei por nada. Como acontece muitas vezes. Sou um day dreamer. Sempre distraído a pensar em mil coisas. Na escola, logo no primeiro ano, o professor disse aos meus pais que deviam levar-me ao médico. “A cabeça dele não está cá. Deve precisar de ter vitaminas para o cérebro”, atirou. Receitaram-me Centrum. Não fez nada. Sempre me distraí muito. Era sossegado, mas sempre o último da turma a perceber as piadas. Não me concentrava, nem prestava atenção: quando ouvia todos a rir, ria-me também e quando o professor olhava, já só restava eu a rir. Era repreendido e apontado como o culpado. 

A conduzir a situação agrava-se. Daquela vez nem reparei na enorme mancha de óleo na estrada, no IP3, entre Viseu e Coimbra. De repente, fiz um pião e quando olhei estava virado em sentido contrário e só via um carro a vir na minha direção. Não sei como é que aquela senhora se desviou… mas não me bateu. Quando tentei controlar o carro, embati no separador central. O carro ficou todo partido, mas não me magoei. Foi a polícia que me ajudou a retirá-lo da estrada – ainda andava. Fui ao volante a conduzi-lo e aproveitei para ligar ao meu pai. Os polícias ainda me disseram: “Então, mas você está a falar ao telefone e a conduzir à nossa frente?” Nem pensei. Ainda não estava medicado. 

Como tenho PHDA, sofro sobretudo de Défice de Atenção e de alguma impulsividade. A hiperatividade é mais comum nas crianças – como os tiques de movimento. Nos adultos o mais comum é desaparecer. Tenho de tomar um psicoestimulante todos os dias de manhã, em jejum, assim quando saio de casa já está a fazer efeito. É o que me ajuda a focar. 

Agora estou a tomar um novo medicamento, o lisdexanfetamina, que não cria adição e é de longa ação – 14 horas. Antes tomava a metilfenidato, mas à noite evitava conduzir, porque o efeito era mais curto. 

É como usar óculos
Tomo medicação desde os 24 anos e é parecido com usar óculos. Os óculos servem para corrigir e é o que a medicação faz, corrige este défice que não possibilita terminar tarefas e que nos leva a dispersar. O psicoestimulante permite conduzir prestando atenção a coisas tão simples como não deixar o carro ir abaixo, estacionar sem dificuldades, a não acelerar e nem a perder a paciência com outros condutores. 

Não cria habituação e funciona como on e off. Quando tiramos os óculos, voltamos a ver mal. Quando não tomamos a medicação, voltam os sintomas. É por isso que não conduzo se não tomar a medicação. A PHDA é das perturbações com mais preconceitos. Porque quando estamos mais cansados, somos mais impulsivos, desorganizados. Mas um PHDA é sempre assim. Todos os dias. 

Nos dias em que não tenho de trabalhar, não tomo a medicação. Trabalho sozinho – com chefes e colegas não correu bem. Depois de tirar um MBA, criei uma empresa de consultoria. Um dia ligou-me um cliente com um problema de última hora. Já não podia tomar a medicação, se o fizesse não dormia, mas disse-lhe que ia tentar resolver. No dia seguinte, quando olhei para a secretária parecia que lá tinha caído uma bomba. Uma desorganização que nem eu entendia… Quando não tomo a medicação, disperso muito. 

A pior fase foi na faculdade, em Coimbra. Deixei a casa dos meus pais em Mangualde e fui viver com amigos. Via todos os colegas terem sucesso menos eu. Foi complicado. Eu explicava-lhes a matéria – entrei em Engenharia Eletrotécnica – mas eles tinham melhores notas que eu. 

Também não conseguia tomar conta do dinheiro – um dos grandes problemas dos PHDA. Temos dois, gastamos dois. Temos o impulso da compra. Comprar o que não se precisa e porque não dois pares de ténis em vez de um. O meu banco já me tentou aumentar o plafond do cartão de crédito. Recusei. Não posso. Durante a faculdade esquecia-me de pagar as propinas. Durante dois anos não tive bolsa de estudo porque me esqueci de entregar os papéis. Como sempre trabalhei – fui serralheiro, eletricista… – ia tendo dinheiro. Mas estive perto da depressão. A frustração levava-me a sair muito à noite, a beber. Descontrolava-me um bocado. Vários estudos demonstram que há uma forte relação entre casos de PHDA não diagnosticados ou sem tratamento com consumo de subs- tâncias aditivas e álcool. 

Uma vez disseram-me que o Dr. Boavida [médico pediatra, presidente da Sociedade Portuguesa de Défice de Atenção] precisava de ajuda a passar slides para computador, powerpoints. Aceitei trabalhar com ele e quando comecei a copiar tudo para computador e a ler sobre hiperatividade, défice de atenção, impulsividade, comecei a perceber… Disse-lhe que achava que era assim. Ele concordou. Comecei a lembrar-me do meu histórico em criança. Era tão distraído que parti o dedo do pé a jogar à bola, porque dava pontapés nas pedras da calçada. Na escola, era o André que não se esforçava e andava distraído. Há pessoas que veem este diagnóstico como um rótulo, para mim foi uma luz, passei a perceber. Tenho de ser acompanhado com consultas. Além disso, leio imenso sobre a doença. Quero saber tudo e criar as minhas estratégias. 

Nunca quis falar com os meus pais sobre isto, mais para os proteger. Só falámos quando se percebeu que a minha sobrinha também tinha défice de atenção. Também comecei a trabalhar com a Sociedade Portuguesa de Défice de Atenção e escrevi um artigo a explicar o que era a perturbação. A minha mãe leu e pediu-me desculpa por não me ter ajudado em criança. Ela não percebia as minhas atitudes, que eu não ia arrumar por mais que ela me dissesse. Não conseguia, não era falta de respeito ou de consideração pelos outros. Só com a medicação temos mais foco. Mesmo assim, muitas vezes as pessoas não nos compreendem. 

Tive uma namorada durante dois anos e foi muito complicado. Por mais que quisesse não conseguia dar mais. A desarrumação, a impulsividade, enfim. Decidir fazer uma coisa sem consultar era o mais comum. Uma vez vi que ia haver um congresso fora do País e marquei voo sem dizer nada. Era o fim de semana de aniversário dela. Não procuro relações, não quero e não consigo dar resposta. O PHDA não é muito valorizado em adultos, nem os psiquiatras estão atentos. Só se vê o distraído, o cabeça no ar, quando pode ser um transtorno no cérebro que pode ser tratado. Muitas vezes a PHDA está mascarada. Já não há aqueles sintomas de não parar sossegado na cadeira, mas o problema continua lá. Sem ser tratado. Não costumo falar da doença aos meus clientes. Poucos sabem, mas uma vez um disse-me, a propósito de alguma coisa: “‘Ah, ele hoje não deve ter tomado a medicação.’ Não voltei a trabalhar com ele.”

Fonte: Sábado

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Paula Tooths
Paula Tooths
Jornalista, produtora de TV e escritora, autora de sete títulos publicados no Reino Unido. | Londres - Miami

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