Saúde mental em tempos de pandemia

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Jacqueline Krützmann estava doente, com tosse. Para não se expor a olhares desconfiados em público, ela preferiu ficar em casa. Sob circunstâncias normais, a carga não teria sido tão grande, mas mas dessa vez foi diferente.

Com o instinto infalível que crianças têm para situações especiais, seu filho aproveitou a chance para “ficar com a corda toda”, correndo para cima e para baixo pela sala, pulando sem cessar no sofá. Em breve, Krützmann não encontrou alternativa a não ser se sentar no chão e esperar a situação passar.

“Portadores de doença mental carregam uma mochila nas costas”, explica Ute Lewitzka, chefe do Departamento de Psiquiatria e Psicoterapia do Hospital da Universidade de Dresden e presidente da Sociedade Alemã de Prevenção do Suicídio.

“Por vezes essa mochila está relativamente leve, e eles lidam muito bem com o dia a dia. Outras vezes, porém, a mochila se torna muito, muito pesada, como quando incidem fatores externos de tensão ou as situações de estresse duram muito tempo. E isso se aplica, é claro, a tudo que estamos vivendo agora.”

O mundo está fora dos eixos. Isso coloca especialmente sob pressão aqueles para quem o mundo por vezes parece pouco hospitaleiro: ao todo, há 450 milhões de seres humanos com distúrbios psíquicos.

A “mochila” não é nada de novo para Jacqueline Krützmann: de seus 33 anos de vida, ela passou 20 com um distúrbio de estresse pós-traumático que se manifesta em depressões e medos. Na verdade, ela se sente bastante estável: graças às estadas em clínicas e terapias, consegue distinguir entre si mesma e a doença e toma medicamentos contra a depressão.

Aí veio o coronavírus. De um só golpe, sua estrutura cotidiana entrou em colapso, a universidade foi cancelada, assim como as tarefas a cumprir. Sua ex-companheira, com quem divide a residência, agora trabalha de casa. A cada dia é mais difícil para Krützmann levantar-se pela manhã; custa-lhe esforço telefonar para os amigos. Seus problemas de autoestima a fazem evitar situações em que possa ser olhada de lado – como, por exemplo, tossir em público.

Apoio psicológico reforçado

Os tempos de coronavírus são especialmente perigosos para três grupos de pacientes mentais, e Krützmann pertence a dois deles, com seus sintomas de depressão e ansiedade. Para os depressivos, a súbita eliminação das rotinas regulares pode acarretar retração social e perda da estrutura quotidiana. Para quem sofre de ansiedade, as atuais notícias catastróficas são uma espécie de trampolim para pensamentos circulares, tristeza ou irritabilidade.

Para pacientes de distúrbios obsessivos ou tendência a comportamento compulsivo, os apelos permanentes à higiene manual meticulosa são solo fértil para manias de limpeza e controle. “Afinal, trata-se de um medo difuso”, explica Dietrich Munz, presidente da Câmara Federal Alemão dos Psicoterapeutas. “Nós não vemos os vírus, só podemos fantasiar como podem estar por toda parte.”

Ao mesmo tempo, as medidas de proteção contra a propagação do coronavírus desativam as estruturas usuais e alteram as ofertas de assistência. Segundo Ruth Belzner, da TelefonSeelsorge, o serviço de apoio psicológico da cidade bávara de Würzburg, o número de chamadas diárias cresceu de 32 para 50.

Ela atribui o fato também ao cancelamento das ofertas social-psiquiátricas: não há mais encontros abertos, nem sessões ou excursões em grupo. Agora, a TelefonSeelsorge tornou-se essencial ao sistema, no estado da Baviera.

“Semelhante a uma memória de dependência, entre os pacientes de ansiedade há um mecanismo que ocorre no cérebro e se fortifica: uma memória do medo”, relata Lewitzka. “Ao contrário de quem é saudável, quem sofre de distúrbios de ansiedade precisa empregar muita força para não deixar o medo armazenado na memória se tornar forte demais.”

Vencer esse medo é perfeitamente possível em casos de distúrbios de ansiedade, e ocorre, por exemplo, no contexto de uma terapia. No entanto, o processo exige tempo, e é especialmente frágil quando situações de estresse debilitam os centros de controle da ansiedade. Quem tem experiência terapêutica precisa recorrer a ela: o que aprendi na terapia? Como posso empregar isso agora?

Terapia online: a solução?

Como mostraram pesquisadores de Harvard e Xangai na revista especializada Lancet Psychiatry, na atual pandemia a ameaça aos enfermos psíquicos não se limita à saúde mental.

Além do risco de uma epidemia psíquica paralela, eles lembram que distúrbios da mente podem elevar o risco de infecções físicas, já que os pacientes sofrem de limitações cognitivas, além de redução da consciência de risco e da capacidade de cuidarem de si. É também mais difícil para eles receberem terapia física, já que a discriminação continua sendo muito forte.

Psiquiatras, psicoterapeutas e serviços de crise estão agora confrontados com a tarefa de proteger os pacientes mentais de sua própria vulnerabilidade psíquica elevada. “Registramos os medos e sinalizamos: são tempos realmente difíceis”, assegura Ute Lewitzka.

“Não são poucos os que tendem a ver as coisas numa ótica negativa, só percebendo as ansiedades e medos. Tentamos guiá-los para sair dessa perspectiva e dizer: ‘O que ainda vai bem, justamente sob estas circunstâncias?’ Isso também pode ajudar.”

Ao mesmo tempo, os terapeutas se confrontam com o problema de estarem, também eles, submetidos às medidas protetoras, e de que é necessário reduzir a proximidade física. As atividades em hospitais e clínicas são mantidas; tratamentos de emergência, realizados; a psicoterapia ambulante em geral prossegue, com as devidas medidas de precaução, relatam Munz e Lewitzka.

Com a concordância do paciente, é possível também recorrer a acompanhamento por telefone ou vídeo. Fica faltando a impressão pessoal, tão importante na psiquiatria e psicoterapia, admite Lewitzka. “Mas fico tendo uma ideia de como o paciente está, e, conforme o caso, posso sugerir fazer uma consulta pessoalmente”.

A ideia do tratamento à distância não agrada a Jacqueline Krützmann, contudo: “Não é algo que eu queira associar ao meu quarto de dormir, ou coisa semelhante. Quero que seja num espaço neutro, de onde eu depois possa sair e processar a experiência comigo mesma.”

Ela prefere estabilizar sua estrutura quotidiana. “Quero levantar, tomar café da manhã, pensar: ‘O que tenho hoje no meu programa?’ E aí realmente levar a cabo, em vez de falar: ‘Ah, amanhã ainda dá para fazer.’ E me dar um pontapé no traseiro e dizer: ‘Vou fazer agora.’ Ou realmente procurar tarefas por iniciativa própria.”

Atenção para o pós-coronavírus

David Daniel Ebert é fundador da plataforma digital HelloBetter, que visa assistir pacientes psíquicos por meio de treinamentos online e combater o desenvolvimento de enfermidades mentais. Além disso, é professor de Psicologia Clínica da Universidade Livre de Amsterdã e um pioneiro da psicoterapia digital.

Durante a pandemia da covid-19, ele e seus colegas se empenham para adequar suas ofertas online às necessidades atuais. Assim, estabeleceram uma hotline telefônica psicológica gratuita (telefone 0800 000954, na Alemanha) e sessões digitais regulares de perguntas e respostas com psicólogos e psicoterapeutas.

Na opinião de Ebert, é mais fácil trocar experiências, partilhar apreensões e estratégias numa comunidade online orientada por psicólogos. Além disso, critica o termo “distanciamento social”: mais certo seria falar de “distanciamento físico” e tentar ser criativo junto à distância, já que “nós, seres humanos, não somos feitos para isolamento social”.

Como presidente da Sociedade Alemã de Prevenção do Suicídio, também Lewitzka defende que haja mais espírito comunitário e preza muito a solidariedade que vem despontando: “Isso que vivenciamos em tantos pequenos pontos, essas ajudas, essa criatividade são um potencial que sinaliza às pessoas: ‘Vamos conseguir, vamos sair desta juntos.'”

Ao mesmo tempo, ela alerta para a época pós-coronavírus: “Em períodos de catástrofe natural, vemos que as taxas de suicídio tendem até a cair temporariamente. A coisa pode ficar crítica quando o evento passa, quando não se trata mais de uma questão de sobrevivência, mas de como prosseguir a existência a partir de agora. E aí se percebe tudo o que foi destruído durante a situação de crise. Aí é bem possível que a tendência ao suicídio cresça de novo.”

Naturalmente essa avaliação não deve ser entendida como uma previsão, uma vez que raramente é possível atribuir as tendências suicidas a uma única causa. A dificuldade é se, após a crise, a pessoa volta a cair no individualismo usual. “É com isso, creio eu, que mais devemos tomar cuidado”, alerta Lewitzka.

Fonte: DW 

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Paula Tooths
Paula Tooths
Jornalista, produtora de TV e escritora, autora de oito títulos publicados no Reino Unido. | Londres - Miami

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