Saturday, May 8, 2021

“Anna” discute opressões exercidas pelo patriarcado a partir da Tragédia da Piedade, crime passional que resultou na morte do escritor Euclides da Cunha

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Texto inédito de Mário Viana tem direção de Gonzaga Pedrosa; no elenco estão Gustavo Moura, Valdir Rivaben, Jonathan Well, Selma Luchesi e Vera Lúcia Ribeiro, intérprete de Anna, também idealizadora e produtora do espetáculo.

Está marcada para o dia 8 de maio, sábado, 20h, a estreia da peça Anna, com texto inédito de Mário Viana e direção de Gonzaga Pedrosa. O espetáculo, que será exibido pelo Youtube Veraluz Performance, é livremente inspirado pela Tragédia da Piedade, crime passional ocorrido em 1909. O projeto foi contemplado pelo Edital Proac Expresso Lei Aldir Blanc 36/2020 – Produção e Temporada de espetáculo de teatro com transmissão online. No elenco, estão Gustavo Moura (Dilermando), Valdir Rivaben (Dinorah), Jonathan Well (Sólon), Selma Luchesi (Túlia) e Vera Lúcia Ribeiro, intérprete de Anna, idealizadora e produtora do espetáculo.

A Tragédia da Piedade, que ficou conhecida com esse nome por ter ocorrido no bairro da Piedade, no Rio de Janeiro, se refere à morte do escritor Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, que foi até a casa do amante de sua esposa, Dilermando de Assis, para tentar matá-lo, e acabou sendo morto por ele por legítima defesa. Na peça escrita por Mário Viana, o ponto de vista é o de Anna, a amante de Dilermando e sua futura esposa. Também integram a montagem outros personagens, como Dinorah, irmão de Dilermando que foi atingido por uma bala durante o tiroteio e ficou paraplégico após a retirada da bala de seu corpo; Sólon, filho de Euclides e Anna; e Túlia, mãe de Anna.

As personagens de Mário Viana vivem em dois tempos e em dois espaços numa mesma casa, recurso cênico que, por ser operado por meio das telas, estabelece uma proximidade entre o período da Tragédia da Piedade e os tempos atuais, marcados pelo isolamento social. A narrativa entrecruzada também revela desejos, angústias e culpas que atormentam Anna, cujas sombras dos fantasmas do passado ainda habitam seus pensamentos.

“Usamos a plataforma Zoom para os ensaios, para a definição dos enquadramentos. Para gravar, câmeras de celulares ou mini câmeras, com monitoramento via plataforma Zoom. Por vezes, me imaginei ‘dirigindo no escuro’. As possibilidades de movimentos de cena são as possibilidades do confinamento das casas das atrizes e dos atores transbordadas no confinamento emocional e corporal das personagens, que culminam enquadrados em telas”, conta o diretor Gonzaga Pedrosa.

A história de Anna retrata diversos tabus sociais, como divórcio, traição, diferença expressiva de idades – Anna tinha 16 anos a mais do que Dilermando, e os limites de um amor incondicional, já que ela continuou com Dilermando mesmo após os danos causados pela tragédia. “Na peça, as lembranças de Anna aparecem como se a vida dela estivesse suspensa. O público vê, em forma de flashbacks, as pessoas de seu passado e presente. Neste sentido, o cinema ajudou muito o teatro, pois é possível brincar mais com o vai e vem dessas lembranças”, conta o dramaturgo Mário Viana. “Os personagens se transformam na frente do espectador e eles também se espantam, são informados de algo. É um jogo interessante – um jogo que deve muito ao cinema”, reforça.

Por terem sido perseguidos até o fim de suas vidas, Anna e Dilermando também trazem para a peça a complexidade do assunto sobre os tribunais populares, um tema recorrente hoje, reforçados pelas mídias sociais. Outros temas infelizmente atuais que a peça traz são o da dominação do patriarcado, que gera o impulso no homem em “defender sua honra” e a visão da mulher subserviente ao marido, casa e filhos.

“Anna foi vítima de uma sociedade formada por famílias conservadoras criadas nos regimentos dogmáticos das religiões institucionalizadas pelo poder masculino, o patriarcado consumado a partir da esfera entre religião e política. A política é regida pelo conceito militar, onde o homem é desumanizado e treinado para a guerra, é transformado em um competidor e habilitado para a indústria e o capitalismo. E na religião a mulher é excluída da sua sexualidade, transformando-a em santa virgem Maria, dona de casa e mãe procriadora. A ela era proibido até mesmo gemer durante o ato sexual, e ao homem – ainda hoje – é atribuído o heroísmo de fazer da mulher sua presa sexual subserviente”, diz Vera Lúcia Ribeiro.

A atriz reforça que, ainda que não seja capaz de sentir a dor de Anna, traz em sua interpretação a dor de mulheres que são vítimas da opressão violenta, da humilhação exercida pelo machismo de antes e de hoje, presente em todos os homens, em maior ou menor grau.

Mário Viana destaca que um dos pontos mais interessantes da personagem Anna é o modo com que encara os seus conflitos. “Existem contradições fascinantes tanto nas pessoas quanto nos personagens, e a ideia nessa montagem é de que elas apareçam sem que façamos juízo de valor”, diz o dramaturgo. Vera Lúcia complementa que a vida de Anna traz uma monstruosidade de conflitos, como a impossibilidade de viver plenamente sua vida amorosa e suas liberdades individuais.

É válido lembrar que a Tragédia da Piedade não foi a única fatalidade vivida por Anna. Quando Dilermando foi preso pela morte de Euclides da Cunha, seus filhos foram conduzidos pelo juiz para serem cuidados por tutores da família do marido morto. Ela casa-se então com Dilermando, considerado assassino do seu marido, e ele é novamente atacado, desta vez pelo próprio filho de Anna (enteado do marido), que acaba sendo morto. Anna enfrenta sua maior dor, mas entende que o filho foi convencido a cometer o crime.

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Nossa concepção cênica de Anna propõe um diálogo entre tradição e modernidade, tecnologia e mídias, plataforma-casa-palco e plataforma-online, em paralelos e fricções entre realidade-ficção, tempo-espaço, físico-metafísico, real-virtual. Ela propõe o espaço e o tempo da representação do fato histórico em consonância com o espaço e o tempo da apresentação virtual, da memória gravada e transmitida para os espectadores em suas casas, TVs, computadores e smartphones. Esse é, carinhoso e informalmente batizado, o nosso experimento pandêmico, um diálogo artístico com esses lugares claustrofóbicos – Gonzaga Pedrosa, diretor de Anna.

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O diretor conta que o fato de cada artista interpretar a peça da sua própria casa reforça a proposta do espetáculo de trazer esses diferentes pontos de vista imaginados por Anna. “Usamos a ferramenta mais poderosa do teatro: a imaginação. Apresentamos personagens, sugerimos ambientes, objetos, linhas arquitetônicas e mobiliários que estão em lugares diferentes, mas que brincam com a mente, criando a possibilidade de ser um lugar único-unificado”.

Gonzaga conta ainda que a montagem das cenas organizadas por Andre Grynwask e Pri Argoud traz a ilusão de uma única locação a partir dos enquadramentos sugeridos e da proposta estética desenvolvida na pós-produção. Heloisa Bortz foi orientando cada ator e fazendo o desenho de luz, uma luz unificadora de cinco espaços, e a fotografia still. Telumi Hellen, a partir da pergunta ‘Que roupas você tem em seu guarda-roupa?’ foi ressignificando as vestes e as transformando em figurinos. Rafael Thomazini fez a edição de áudio e compôs uma trilha sonora especialmente para esse experimento cênico.

 

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“As sutilezas para desenhar a interpretação da personagem Anna estão na clareza deste entendimento das polaridades entre o desejo e a real impossibilidade, os fatos, a injustiça que impera na vida de Anna. Nossa vida também está repleta de impossibilidades e injustiças, principalmente nesse momento cruel político e sanitário da pandemia Covid-19. São impossibilidades de toda ordem que machucam nosso ser. Estamos vivendo muita dor” – Vera Lúcia Ribeiro

 O espetáculo é a primeira peça escrita por Mário Viana, no fim dos anos 1980, e ainda é inédita. “Apesar de ter recebido retornos muito positivos com a leitura do texto naquela época, a escrita da peça coincidiu com a estreia da série televisiva Desejo, de Glória Perez, que retratava exatamente a Tragédia da Piedade”, lembra-se o dramaturgo, que decidiu guardar o material para uma montagem posterior que pudesse acontecer dissociada do produto televisivo.

Na sequência, Mário consolidou-se como comediógrafo, autor de peças que variam do escracho escatológico ao conflito familiar. Trinta anos depois da escrita de Anna, o texto foi retomado para uma leitura online, o que trouxe um outro encantamento à obra e a vontade de vê-la montada, agora em formato virtual e, futuramente, nos palcos.

“Me interessa na peça o aspecto do poder feminino e seu direito de exercer sua liberdade como lhe convier. Anna está à frente de seu tempo como mulher e não se curva às regras opressoras da sociedade. Me interessa falar do feminino que é cerceado e oprimido pelo machismo. Me interessa dar voz a mulher, ao seu direito de respeito como mulher, mãe e amante. Me interessa falar do porque continuamos a ver tanta violência e preconceito contra a mulher – falar do sistema político religioso sustentado por uma sociedade hipócrita e mentirosa”, conta Vera, que após ter conhecido o texto de Mário, embrenhou-se em uma pesquisa sobre Anna que passou por uma série de matérias jornalísticas e diversos livros, sendo um deles Anna de Assis – História de Um Trágico Amor, escrito pelo jornalista Jeferson de Andrade e pela filha de Anna, Judith Ribeiro de Assis.

FICHA TÉCNICA

Texto: Mário Viana

Concepção e direção: Gonzaga Pedrosa

Direção de imagem: André Grynvask e Pri Argoud

Elenco: Vera Lúcia Ribeiro (Anna), Gustavo Moura (Dilermando), Valdir Rivaben (Dinorah), Jonathan Well (Sólon) e Selma Luchesi (Túlia)

Trilha sonora original e edição de áudio: Rafael Thomazini

Desenhos de luz e fotografia: Heloísa Bortz

Figurino: Telumi Hellen

Assessoria de imprensa: Canal Aberto – Márcia Marques

Assessoria em Gestão Financeira: Wannyse Zivko

Preparação corporal e voz do ator Jonathan Well: Vera Lúcia Ribeiro

Voz em Off (Mulher): Aurea Braucs

Voz em Off (Homem): Rafael Thomazini

Técnicos de som, luz e câmera: o elenco

Aprendiz-ouvinte: Ana Beatriz Ribeiro

Idealização e Produção: Veraluz Performance

Projeto contemplado pelo Edital Proac Expresso Lei Aldir Blanc 36/2020 – Produção e Temporada de espetáculo de teatro com transmissão online, viabilizado pelo Ministério do Turismo, Secretaria Especial de Cultura e Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa.

SERVIÇO

Anna

Temporada online de 8 a 16 de maio de 2021, de sábado a domingo, 20h

Duração: 100 min. | Classificação: 14 anos | Grátis

Exibição pelo Youtube Veraluz Performance

Haverá bate-papos com o elenco, após a peça, nos dias 8 (sábado) e 15 (sábado) de maio, através de link na plataforma zoom que será informado no dia de cada bate-papo.

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